Guia para ler

Este blog foi feito no típico estilo “diário”, para registrar a aulas do curso “Tomada de decisões ambientais: uma abordagem sistêmica “, ministradas pelo professor Andrea Berardi entre 30 de novembro e 1 de outubro de 2012, no programa de pós-graduação em Educação para a Ciência da Unesp, campus de Bauru.

O conteúdo está organizado em cinco categorias:

Teoria

Prática

Aula 1

Aula 2

Aula 3

A maioria das postagens é independente. Quando possuem uma relação de dependência, eu a indiquei no final do texto.

Para acompanhar o percurso todo, obviamente, a leitura deve ser feita de baixo para cima, seguindo este roteiro:

1. Porque estamos aqui

2. A ideia de sistema no começo da ciência

3. Afinal, o que é um sistema?

4. Sistemas simples e sistemas complicados

5. Refinando conceitos: o que são sistemas complexos

6. Conhecendo as características internas dos sistemas complexos

7. O ciclo da Fênix na teoria dos sistemas

8. Sobre ser duro e suave nos sistemas

9. Sistemas de direita e sistemas de esquerda

10. Experimentando com arquiteturas

11. Explorando a metodologia dos soft systems (1)

12. Explorando a metodologia dos soft systems (2)

13.  Explorando a metodologia dos soft systems (3)

14. Mão na massa e resultados

Imagino como leitor ou leitora ideais deste blog gente como eu. Antes de começar o curso, eu sabia de duas coisas: 1. que a evolução do pensamento cartesiano era o assunto do filme “O ponto de mutação”, com a Liv Ullman, ex-mulher do Ingmar Bergman, baseado no livro do físico Fritjof Capra; 2. que esse assunto é objeto de discussão intelectual entre gente cool.

O intensivão do professor Berardi foi bem útil para diminuir minha ignorância, ao mesmo tempo em que me deu uma visão estrutural e crítica do assunto, que eu não teria de outra forma – a não ser que estudasse muito, coisa que eu não tenho tempo nem condições de fazer.

Ainda bem que vivemos na época dos blogs e eu posso compartilhar com outras pessoas esse atalho de acesso ao pensamento sistêmico.

Se você ainda está aqui, boa leitura!

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Mão na massa e resultados

Para terminar a última aula, aplicamos a metodologia em três etapas a um problema fictício: uma crise em Bauru provocada por incêndios descontrolados, ondas de violência urbana e epidemia de dengue hemorrágica. Com um cenário complicado desses, por onde começar a agir?

Seguindo a metodologia dos soft systems, nossa primeira tarefa foi construir uma “rich picture” individual, que depois foi comentada para o grupo. Eu fiz essa:

A seguir, cada aluno apresentou a sua visão ampla da crise. O professor Berardi fez comentários pontuais a cada contribuição.

Ainda na segunda etapa, cada aluno elaborou o seu diagrama de subsistemas dentro do sistema “Crise em Bauru”. Eu fiz assim:

Tentei organizar o caos em pares de elementos que se complementam: meio ambiente e espaço urbano; instituições e subjetividade das pessoas; reações positivas e negativas que são despertadas com a crise. Parece que, aos poucos, o caos que eu havia desenhado começou a ganhar alguma estrutura, moldada pela falta de comunicação entre os diversos grupos envolvidos na crise. Assim, por exemplo, fiz gente fugindo para o campo porque não sabia que o campo também estava caótico. Fiz gente se matando, mas também pessoas se empenhando em procurar uma solução, representadas por aqueles que replantavam árvores nas margens do rio Batalha. Enfim, se houvesse alguma conexão entre instituições e subjetividades, entre as áreas rural e urbana, entre os otimistas e os pessimistas, talvez fosse possível ao menos reduzir sensivelmente o caos, num curto período de tempo, porque as pessoas veriam os outros lados da questão, a partir da perspectiva do outro. Essa potencial redução da situação de caos daria fôlego aos grupos para pensar em soluções mais estruturais e duradouras.

Percebemos que a transição da rich picture para o diagrama em subsistemas dentro do sistema começa a pôr ordem nas ideias, entretanto sem ainda atribuir uma hierarquia, o que aumenta a chance de restringi-las. Nesta fase, a visão ainda é holística e não linear, embora comece a ter uma organização que prepara o caminho para a terceira etapa, a da elaboração dos diagramas com conexões e feedbacks, que nossa turma apelidou de “conexograma”.

Como o tempo estava se esgotando, a última etapa foi feita pela turma toda. Primeiro, listamos as palavras usadas por todos os diagramas e as agrupamos por proximidade: êxodo rural e fuga da cidade; florestas e rios; escola, igreja e hospital, morte por doença e suicídio etc.

Por fim, fizemos um diagrama de relações de influência, com feedbacks positivos e negativos. Esse diagrama, se fosse elaborado à exaustão, nos daria uma visão sistêmica da crise e nos ajudaria a encontrar soluções criativas para enfrentar o problema.

Foram 16 horas de curso, concentradas numa teoria cheia de nuances e minuciosidades. Para mim, que não tinha uma visão estrutural dessa área e muito menos conhecimento sobre como aplicar a teoria na prática, voltei para casa com a cabela fervilhando. Foi por isso que resolvi registrar o máximo que pude neste blog.

Passados alguns dias da maratona do pensamento sistêmico, fico pensando no que esse curso significou para mim, e tive uma resposta no feriado da Proclamação da República, quando fui ver uma exposição de obras do designer italiano Bruno Munari, no Instituto Tomie Otake em São Paulo.

Munari é autor tanto de objetos criativos e funcionais quanto de obras de arte no mais típico estilo dadaísta, e transita com maestria em o utilitarismo e a pura experimentação estética. E, o mais curioso é que, na obra dele, uma coisa parece estar aninhada à outra, isto é, provavelmente ele não teria a “sacada” de criar os habitáculos se não tivesse feito os experimentos com as chamadas “máquinas inúteis”.

A obra do designer italiano Bruno Munari mostra como o experimento estético abstrato é o caminho para a criação de coisas úteis e criativas.

A experiência com o pensamento sistêmico, de certa forma (e guardadas as devidas proporções) me pareceu mais ou menos como estar dentro da mente de gente como Munari. Ali na, naquela hora, não passou muito de um experimento cognitivo, mas eu senti que trouxe uma contribuição importantíssima para o desenvolvimento da minha criatividade intelectual: pensar de maneira sistêmica em situações concretas.

Para começar, vou usar o que aprendi quando tiver de coordenar todos os elementos necessários à promoção da mídia-educação nas escolas de Ensino Médio tal como elas são: locais em crise mas, por isso mesmo, abertos a soluções inusitadas.

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Explorando a metodologia dos soft systems (3)

Depois de criar a “rich picture” sobre o problema, é hora de adaptar essa visão holística para os sistemas de diagramas. Não há uma regra rígida sobre como fazer isso e a saída é identificar o tipo de diagrama que melhor representa a dinâmica do problema em questão. Pode ser um mapa argumentativo, diagramas de causa e efeito, de múltiplas causas etc. Um aluno da turma propôs um termo bem antropofágico, no sentido modernista para descrever os elementos do sistema e as relações entre eles: “conexograma”.

De cima para baixo e da esquerda para a direita temos diagramas de múltiplas causas, mapa de subsistemas, mapa de subsistemas com relações de influência. Em baixo estão os exemplos de diagramas de influência positiva e negativa.

O professor Berardi exibiu então um diagrama que ele próprio fez quando trabalhou em um projeto no Oriente Médio.

Neste diagrama, todos os esforços são feitos para se identificar os elementos que compõe o sistema de reprodução da pobreza.

Assim, quanto mais há pobreza, mais há doença e, consequentemente, ainda mais pobreza. Quando mais esses elementos aumentam, mais cresce também o fundamentalismo. Quanto maior o fundamentalismo, maior é a guerra e aumentam os crimes, que retro-alimentam a pobreza, num círculo vicioso sem fim. A pobreza também retro-alimenta a desertificação e a falta de água que, por sua vez, aumentam também a pobreza. Esse cenário aumenta a falta de esperança geral.

Numa visão sistêmica, os mecanismos de retro-alimentação da pobreza podem ser ao menos amenizados com a introdução de elementos de feedback negativo no ciclo vicioso. Assim, conforme o diagrama, ações educativas podem diminuir a disseminação da falta de esperança; tecnologias adequadas podem enfrentar a falta de comida, diminuindo a ocorrência de doenças; o trabalho voluntário pode diminuir o comportamento individualista, que pode melhorar o suprimento de comida, diminuindo a ocorrência de doenças e, lá na frente, diminuir a pobreza.

Quem elabora um diagrama precisa ter o cuidado fundamental de organizá-lo com uma lógica interna que faça sentido a todos os envolvidos. Caso contrário o resultado será um emaranhado de informações que poderão até surtir efeito contrário: ao invés de esclarecer, obscurecem o problema, como na charge apresentada pelo professor Berardi:

Uma medida sensata para saber se o seu diagrama faz sentido é avaliar se ele:

1. Cria conexões entre as ideias, de modo que surjam soluções criativas para os problemas;

2. Identifica pontos de ação nos diversos subsistemas que tenham efeitos em maior escala;

3. Vislumbra pontos onde se pode alterar os processos viciados do sistema;

4. Introduz novos subsistemas;

5. Acima de tudo, identifica ações desejáveis e realizáveis.

Quem usa a metodologia dos soft systems nunca deve esquecer o mecanismo da iteração, ou seja, do processo de repetição de uma ação até se chegar ao resultado almejado. Por isso,  o trabalho básico consiste em sempre coletar dados e opiniões dos diversos lados envolvidos sobre o impacto das ações; resistir à tentação de começar de maneira estruturada, ainda que a gente sinta que já conhece o sistema; sempre que possível agregar novas perspectivas e evitar trabalhar só com a racionalidade. Muitas vezes, é a intuição que  indica o melhor caminho.

Para finalizar a apresentação das três etapas da metodologia, o professor Berardi trouxe uma citação de um livro “Designing Freedom” publicado pelo professor inglês Anthony Stafford Beer (1926-2002), da Manchester Business School, em 1974:

“Cada aluno é um organismo de alta variação, e o processo educacional, essencialmente, limita tal variedade. Em outras palavras, o aluno é capaz de gerar muitas respostas para a pergunta: quanto é seis multiplicado por sete, e o educador vai sempre procurar atenuar esta potencial variedade, através de uma resposta única:  resposta: 42. Mas, se considerarmos problemas diferentes, podemos encontrar nós mesmos dizendo algo muito diferente. O aluno é capaz de gerar muitas respostas para a pergunta: como é que um serviço nacional de saúde pode ser organizado? Desta vez, devemos esperar que o educador não restrinja a diversidade de respostas a uma: desse jeito. Não, nós dizemos, a educação é uma palavra que vem do latim: e-ducere, que significa “levar para fora”, o que é diferente de “alinhar”. Ainda assim, o processo educacional continua restringindo a diversidade. Qualquer um que pense sobre este paradoxo por alguns minutos, pode ver que,no fundo, nossa esperança é que possamos ensinar aos alunos os caminhos para atenuar sua própria variedade.”

Em termos pedagógicos, o pensamento sistêmico pode embasar aulas que usem a aprendizagem baseada em problemas, as propostas  multidisciplinares, a aprendizagem fora do ambiente artificial da sala de aula. Entretanto, tão logo comece a  usar essa abordagem, o professor não poderá mais se contradizer. “Pratique o que você prega, ensinando sem usar estruturas hierárquicas, mas sim as igualitárias e processos”, enfatizou o professor Berardi.

Qualquer que seja a atividade, ela deve ser pontuada pelas formas visuais e relacionais de comunicação. O maior desafio talvez, seja aceitar que a perspectiva dos sistemas complicados nunca vai produzir respostas certas e cabais. Nunca.

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Explorando a metodologia dos soft systems (2)

Dando sequência à apresentação das metodologias dos soft systems, o professor Beradi mostrou exemplos da sua própria experiência como ecólogo, quando pesquisou problemas de tribos indígenas no Estado do Tocantins.

O primeiro passo foi construir o que ele chamou de “rich picture”, isto é, uma imagem tão ampla e completa quanto seja possível a uma mente humana construir. Em 2009, ele construiu esta imagem:

O desenho é uma técnica produtiva para se explorar o contexto de maneira não estruturada. Ao deixar de lado as palavras e operar com uma linguagem não verbal, ativamos as áreas do cérebro que pensam de maneira intuitiva e, assim, podemos enxergar aspectos e relações que talvez passassem desapercebidos numa exploração mais linear.

Neste caso, o que o professor Berardi viu foi uma cadeia de relações entre os índios, o ambiente e outros grupos humanos que estão em constante interação com a tribo. Tentei reproduzir aqui o cenário que ele apresentou:

A construção da “rich picture” deve ser feita pelo maior número possível de grupos de interesse (stakeholders) envolvidos com o problema. E todos devem se comprometer em ser claros e explícitos sobre  seus valores, experiências e interesses.

Quem lidera a realização da atividade deve estimular os participantes a refletir sobre:

1. A natureza do seu envolvimento com a situação

2. O papel que desempenha na situação

3. Se está na condição de beneficiário ou vítima da situação

Finda esta etapa, é hora de começar a trabalhar nos diagramas que vão estabelecer os fluxos e mecanismos de retro-alimentação (feedback) do sistema. Esta segunda etapa será tratada na próxima postagem.

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Explorando a metodologia dos soft systems (1)

Já caminhando para o final do curso (e foram 16 horas de muito trabalho!), o professor Berardi focou os esforços na apresentação de um passo-a-passo que incorporasse o conceito de soft systems na realização de uma ação. Pode ser a busca de uma solução coletiva para um problema, a criação de um produto ou serviço, a busca de soluções para uma crise de proporções astronômicas ou o estudo de um tema específico em sala de aula.

Em todos os casos, as técnicas a seguir são básicas:

1. Fazer uma exploração não estruturada do problema;

2. Tratar a questão sempre de uma perspectiva multidisciplinar;

3. Misturar pessoas que sejam especialistas no assunto com pessoas que, embora não tenham a expertise, participem do problema ou questão;

4. Reunir informação escrita, numérica e visual;

5. Enfatizar a aprendizagem social, isto é, situada no contexto e, tanto quanto possível, sem hierarquias entre quem sabe mais e quem sabe menos;

6. Considerar que o resultado é iterativo, trata-se de um processo que deve ser repetido diversas vezes, e que, a cada vez que se repete chega a um resultado parcial, que deve ser usado na vez seguinte. Em outras palavras, cada ciclo de aprendizagem e busca de soluções para o problema funciona como uma espécie de engrenagem não estática, que vai ajudando a criar um sistema mais amplo e diversificado. A cada vez que esse aumento acontece, potencialmente, crescem também as chances de compreender a questão que está sendo estudada.

É por isso que a metodologia dos soft systems não deve ser vista como algo simplesmente intuitivo e desestruturado. Muito pelo contrário. O professor Berardi exibiu esta ilustração que descreve bem a situação:

O pensamento sistemático está na base do pensamento sistêmico e lhe dá sustentação. No ponto em que a hierarquia e a linearidade não se mostrarem mais sustentáveis, entram em cena a intuição, o holismo, o não linear. O resultado dessa proposta é uma dinâmica como esta:

Tradução de esquema apresentado pelo professor Berardi

É difícil dizer qual é o ponto de partida dessa cadeia de pensamento. Ao mesmo tempo em que agem, as pessoas desenvolvem as habilidades cognitivas necessárias,  exploram e re-exploram o contexto onde estão agindo, identificam os aspectos que o grupo deseja que mudem – e que são passíveis de serem modificados. Nesse processo, ganha-se experiência e novas habilidades são desenvolvidas ou aprimoradas, problemas são melhor formulados, melhorando a compreensão sistêmica da situação e favorecendo a tomada de novas decisões. Essa é a dinâmica de um sistema iterativo.

Para fins práticos, ele propôs uma metodologia em três etapas:

1. Construir uma “rich picture” da situação, usado preferencialmente o desenho (ainda que você seja um péssimo desenhista), para usar estruturas cerebrais mais intuitivas e holísticas;

2. Transformar esse desenho holístico num “diagrama pulverizado”, que crie subgrupos de palavras deduzidas do desenho dentro do sistema;

3. Ajustar os subgrupos em diagramas que podem ser de causa e consequência, feedback positivo e negativo, de múltiplas causas etc.

A seguir, o professor Berardi mostrou exemplos da sua própria experiência sobre cada uma das etapas.  Elas serão descritas nas próximas postagens.

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Experimentando com as arquiteturas

Depois de conhecermos a relevância do pensamento sistêmico, estudarmos os conceitos fundamentais e as abordagens mais comuns dessa área do conhecimento, partimos para um experimento com as arquiteturas dos três sistemas: hard, soft e complexo.

O professor Berardi pediu aos alunos que, em pequenos grupos ou individualmente, pensassem em um plano de aula que tratasse o mesmo assunto nas três abordagens.

Escolhi o ensino da leitura crítica de fotografias, um tema que eu sempre trato nas minhas aulas de “Comunicação, Educação e Tecnologia”, ministradas para os cursos de licenciatura da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Esse foi o resultado:

Planos de aula inspirados nas arquiteturas sistemática, sistêmica e evolucionária dos sistemas

Essa atividade é particularmente últil para nos dar uma visão evolutiva do jeito de pensar de cada sistema. O primeiro deles, o sistemático, nos dá mais segurança, porque tudo pode ser planejado com base na tradição. Elaborar um plano de aula aplicando a terceira arquitetura, a evolucionária, vai para o outro extremo, o da experimentação e da rejeição a práticas instituídas. No meio desses dois extremos há o plano inspirado na arquitetura sistêmica, ao meu ver, a mais interessante, porque permite que se faça um equilíbrio entre aquilo que é tradicional e estabelecido, mas também tem uma abertura para inovações na prática pedagógica.

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Sistemas de direita e sistemas de esquerda

Antes de conhecer as metodologias de aplicação do pensamento sistêmico, o professor Berardi reservou um tempinho para promover uma pequena discussão de caráter político. Como em qualquer área do conhecimento, o pensamento sistêmico também sofre disputas e se identifica com uma determinada porção do espectro político.

Essa análise de qual apito cada abordagem toca pode ser minimamente explicada da seguinte forma: os “sistemáticos” ou hard systems agem sobre uma arquitetura hierárquica e tendem a ser mais autoritários; os “sistêmicos” ou soft systems funcionam em uma arquitetura igualitária e, por isso, se identificam com a mentalidade política de esquerda. Por fim, os sistemas “evolucionários” ou complexos têm arquitetura individualista, baseada na sobrevivência (e no poder) dos mais competentes ou adaptados. Ser igualitário, no pensamento sistêmico, não significa ser comunista, mas sim agir com foco no bem comum acordado ao invés da competição.

Conforme a apresentação do professor Berardi, o pensamento complexo (que é, portanto, diferente do pensamento sistêmico, assunto do curso) é fundamentado na auto-organização e na evolução natural. A auto-organização se refere ao encorajamento de um sistema que seja capaz de emergir espontaneamente tão logo a ação autônoma dos participantes se torne interligada ou co-dependente uma da outra. É uma questão de acaso. A evolução natural defende que o sistema será capaz de mudar sua estrutura e processos na medida em que precisar se adaptar para manter sua vitalidade durante a mudança em um contexto dinâmico. É uma questão de dançar conforme a música e parece haver pouco espaço para atitudes de resistência.

Exemplos de autores do pensamento complexo são:

Kevin Kelly, autor do livro “Out Of Control – The New Biology of Machines (1995), que argumenta da seguinte forma: “Assim como nós moldamos a tecnologia, ela nos molda. Estamos conectando tudo a tudo e, portanto, nossa cultura inteira está migrando para uma cultura em rede e para uma nova economia em rede”.

Manuel Castells, autor de livros como “The Internet Galaxy – Reflections on the Internet, Business, and Society” (2001), para quem “a internet é a base tecnológica para a forma de organização da Era da Informação: a rede”.

Na perspectiva do pensamento sistêmico, as coisas não são tão espontâneas assim: alguns têm mais oportunidades de moldar a tecnologia e outros são simplesmente moldados por ela, a internet não é tão plana como apresentada pelos otimistas. Muito pelo contrário: hubs como o Facebook e os grandes portais noticiosos têm o poder de fazer imergir informação e ações que, de outro modo, talvez simplesmente não acontecessem. A espontaneidade, a aptidão e a auto-organização às vezes precisam ser equilibradas com o consenso coletivo orientado pelo bem comum.

Este foi o fim de um dia inteiro de muita atividade mental. Completada a etapa da teoria (que o tempo todo foi pontuada por experimentos práticos e divertidos), nos preparamos para as atividades práticas.

 

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