A ideia de sistema no começo da ciência

A segunda parte da primeira aula sobre pensamento sistêmico do professor Berardi apresentou, de maneira sintética, os conceitos fundamentais para essa área. O ponto de partida foi o Discurso do Método de René Descartes (31/3/1596 – 11/2/1650), publicado em 1637.

Basicamente, Descartes defendia o uso de um método com quatro regras que, se fossem usadas sistematicamente, permitiriam que se chegasse à verdade:

“A primeira consistia em nunca aceitar algo como verdadeiro sem conhecê-lo evidentemente como tal, isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; não incluir nos meus juízos nada que não se apresentasse tão clara e distintamente à minha inteligência a ponto de excluir qualquer possibilidade de dúvida.”

“A segunda era dividir o problema em tantas partes quantas fossem necessárias para melhor poder resolvê-lo.”

“A terceira, conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, gradualmente, até o conhecimento dos mais compostos; e admitindo uma ordem mesmo entre aqueles que não apresentavam nenhuma ligação natural entre si.”

“Por último, sempre fazer enumerações tão completas e revisões tão gerais, que tivesse a certeza de nada ter omitido.”

Reduzindo o problemas a partes estanques e estudá-las separadamente funciona, mas tem alguns efeitos colaterais indesejados, na visão do pensamento sistêmico:

  • Separa a emoção e a razão – e a paixão por um assunto é um componente que não deve ser menosprezado;
  • Separa a humanidade da natureza – o resto da história, a maioria já conhece;
  • Impede que os cidadãos vejam o contexto maior das questões e problemas (que, em inglês se chama “big picture);
  • Impede que os cidadãos vejam o propósito final de uma ação ou decisão. Se  a maioria não compreende o porquê das coisas, obtém-se, por exemplo, menos engajamento;
  • Pode disseminar uma falta de esperança e, consequentemente, um senso coletivo de não ter responsabilidade sobre os problemas.

Por fim, o professor Berardi lembrou que as elites econômicas dominam – e usam – o pensamento sistêmico. Basta pensar numa companhia do porte da Coca-cola que polui a água para produzir refrigerantes e sucos conservados e também vende água potável. Situação semelhante é a das corporações de mídia que produzem e vendem aparelhos, sistemas operacionais e conteúdo para plataformas digitais, dominando o sistema de produção e circulação de informação. É a capacidade de enxergar a “big picture” que mantém essas companhias no poder.

Nossa próxima tarefa é compreender os conceitos fundamentais do pensamento sistêmico. E isso pode começar a ser feito resolvendo o problema da figura abaixo. O que você faria para impedir que o barco afundasse?

Estou realmente feliz pelo fato do buraco não estar do nosso lado...

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Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
Esta entrada foi publicada em AULA 1, TEORIA. ligação permanente.

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