Afinal, o que é um sistema?

A palavra “sistema”, assim como as palavras “estrutura” ou “signo”, é abrangente e maleável o suficiente para ser aplicada às mais diversas – e às vezes estranhas – situações. Sistema pode se referir tanto ao Estado autoritário (quando é empregada na linguagem do hip hop, por exemplo), quanto à natureza exuberante e livre de ameaças (quando é usada pelos ecólogos). No contexto do pensamento sistêmico, a definição mais simples da palavra é “um conjunto de componentes interdependentes que interagem regularmente e formam um todo unificado”. É aquela história de que o todo é maior que a soma de suas partes.

O professor Berardi usou o exemplo muito simples da água: duas moléculas de Hidrogênio e uma de Oxigênio são três componentes que interagem para criar algo que é um todo unificado e completamente diferente de suas partes isolada. Isto é, os sistemas sempre têm propriedades emergentes e foi isso que Descartes não considerou.

A esta altura, a pergunta do professor Berardi foi: “mas o que é que se conecta ou flui através do processo de emergência de um sistema?”

Ele mesmo deu a resposta: matéria, energia e informação. A matéria e a energia são os insumos (inputs) básicos para criar um sistema e determinam as características dos componentes.  A informação pode ser interpretada como uma espécie de estímulo sensorial para prever a ocorrência de outras entradas ou insumos. Às vezes, essas novas entradas surgem mais mais tarde ou em outro lugar.

Quaisquer que sejam os sistemas com os quais estamos lidando, eles podem ser divididos em três tipos de arquiteturas:

1. Sistemas de arquitetura individualista

Nessa arquitetura, os elementos se ligam ou fluem de maneira mais forte em situações nas quais há mais vantagens e de maneira fraca nas situações em que há menos vantagem. Pensei no exemplo da fofoca dentro da universidade: quando há mais interesse em difamar uma pessoa que está incomodando, mais pessoas tendem a espalhar a maledicência, e isso é uma forma de fluxo.

2. Sistemas de arquitetura igualitária

Os componentes dos sistemas desse tipo se relacionam de forma igual e, assim trazem vantagens iguais para todos os componentes. O exemplo que me veio à cabeça é o modo de vida das comunidades Faxinais que vivem na região Centro-Sul do Paraná. Nessas comunidades, que subsistem há mais de 100 anos, nas florestas de Araucárias do Estado do Paraná, a propriedade é dividida de duas formas. Há uma área maior, de mata nativa, que serve de criadouro comunitário, onde são criados porcos, cabritos e galinhas e também para extração da erva-mate, cujo excedente é comercializado. Ao redor desse território comum ficam as casas e roças dos moradores. Nessas pequenas propriedades, cada família desenvolve sua atividade agrícola, plantando alimentos básicos como feijão, mandioca, milho, batata-doce e amendoim. Ver uma comunidade Faxinal funcionando, de cima, é como vislumbrar um sistema de arquitetura igualitária.

3. Sistemas de arquitetura hierárquica

Nessa arquitetura, um componente se impõe e, assim, se integra mais do que outros. O número de conexões e maior e o fluxo é mais intenso entre os componentes que, por alguma razão, têm mais influência. O exemplo típico, obviamente, é a hierarquia de instituições tradicionais como o poder executivo, a indústria ou uma matilha de cães. A internet, a despeito de todas as análises eufóricas e otimistas, é um sistema hierárquico, porque o fluxo de informação é maior quando é incorporado por algum hub. Um exemplo recente é a página “Diário de Classe“, criada no Facebook pela estudante catarinense Isadora Faber, que  se tornou um protesto conhecido depois que portais noticiosos como o UOL começaram a divulgar a iniciativa.

Por fim, o professor Berardi salientou que um sistema nem sempre pode ser reduzido a uma arquitetura. Na verdade, um sistema pode abrigar diversos subsistemas aninhados (nested), alguns podem ser hierárquicos, outros igualitários, outros individualistas. Uma comunidade como a dos Faxinais do Paraná é um sistema igualitário que se relaciona com as universidades, que são sistemas hierárquicos, por exemplo. Esse assunto rendeu uma discussão à parte, que logo será reportada.

Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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