Conhecendo as características internas dos sistemas complexos

O segundo dia de aula começou com uma breve revisão dos tipos de sistemas vistos no dia anterior: simples, complicados e complexos. A seguir, era preciso investigar as características internas dos sistemas complexos, aqueles que são compostos de subsistemas e possuem  muitos mecanismos de retro-alimentação, mecanismos esses que podem ser pontuais ou atrasados.

O fato dos sistemas complexos serem complicados, incompletos, imprevisíveis e difíceis não significa que não têm como ser estudados. A seguir, o professor Berardi apresentou algumas tipologias que nos ajudaram a entender melhor a arquitetura desses problemas.

Tudo começou com uma pergunta geradora de hipóteses: “quem deveria liderar uma transformação da sociedade rumo à sustentabilidade?”

Primeira hipótese: as empresas, desenvolvendo tecnologias verdes e mobilizando os consumidores;

Segunda hipótese: o Estado, estabelecendo políticas rígidas de regulamentação;

Terceira hipótese: as comunidades, criando estilos de vida locais auto-sustentáveis;

Quarta hipótese: ninguém, isso é uma ideia no mínimo ingênua, porque as empresas só querem ganhar dinheiro, os governos são corruptos e as comunidades não existem mais.

Houve uma breve discussão no grupo, mas a tendência geral foi a de descordar da quarta hipótese, porque isso seria o fim do mundo e, afinal, estamos todos aqui, temos inteligência e todos nós conhecemos algum tipo de iniciativa seja no âmbito do Estado, seja no da sociedade civil, que vem oferecendo respostas concretas à questão do desenvolvimento com sustentabilidade.

O professor Berardi então apresentou um tipologia das culturas (que podem ser interpretadas como subsistemas dentro do sistema cultura humana) feita pelo teórico da cultura Michael Thompson, para dar prosseguimento à arquitetura dos sistemas complexos:

Individualismo – nessa perspectiva, a natureza é benigna e resiliente, capaz de se restaurar e a exploração é inerente ao ser humano, que age por tentativa e erro, sempre focado nos seus interesses.

Igualitarismo – é a perspectiva oposta à primeira, que concebe os seres humanos como frágeis e intrinsecamente ligados, com tendência à ajuda mútua, a não ser que sejam forçados a agir de maneira diferente, por pressões com aquelas vindas do mercado, por exemplo. Deve-se tratar o ambiente com cuidado, porque ele é igualmente frágil.

Hierarquia – aqui, a natureza é vista como algo controlável e estável, a não ser que seja pressionada para além dos seus limites. Os seres humanos são falhos, mas podem ser “recuperados” se forem geridos por instituições firmes e confiáveis.

Fatalismo – esse olhar não identifica razão ou ritmo na natureza e acredita que o ser humano é inconsciente, inconstante e não merece confiança. É o cenário do “desistam, não há luz no final do túnel” . Estamos todos f@#$%&*.

Veja aqui uma entrevista com Michael Thompson para a Royal Society for the Encouragement of Arts, Manufactures and Commerce, RSA (em inglês):

Leia aqui um artigo da antropóloga Mary Douglas sobre o assunto:

http://www.psych.lse.ac.uk/complexity/workshops/MaryDouglas.pdf

Essas concepções de cultura podem ser conectadas a quatro possibilidades de futuro, desenhadas por Robert Costanza, da Universidade de Maryland nos Estados Unidos:

O desenvolvimento tecnológico é um ponto de referência nesse cenário e, a partir desse ponto, é possível traçar duas visões. Uma é positiva, chamada de “otimista tecnológica”, que Robert Costanza representa com a série de TV “Star Trek”. Outra é negativa e pessimista Tecnológica, representada pelo filme Mad Max. De qualquer modo, são duas visões que têm em comum o fato de acreditarem que a tecnologia muda o mundo: para melhor ou para pior.

Os outros dois cenários são sépticos em relação ao poder da tecnologia para mudar o mundo. Não que a desprezem, mas acreditam que o potencial para a mudança está em outros lugares, como o comportamento das pessoas e comunidades, por exemplo. Para essas duas perspectivas, a tecnologia pode tanto criar quanto solucionar problemas e a questão é ver a tecnologia como a serviço de objetivos sociais e não como a dirigente desses processos.

Esses dois cenários são representados pela figura do Grande Governante, onde uma hierarquia sufocante tenta manter a sociedade sob controle e pela figura da Ecoutopia, na qual pequenas comunidades auto-sustentáveis e com consumo muito baixo vivem isoladas e independentes.

A perspectiva das quatro formas de cultura e o desenho dos quatro cenários têm em comum a ideia da imprevisibilidade que pode ser trazida pelos feedbacks do sistema: pode ser assim ou assado, dependendo dos inputs e da capacidade dos sistemas de lidar com eles.  É por isso que os sistemas complexos devem ser lidos como ciclos adaptativos e essa ideia, na verdade, não é nova: já estava prevista no Capital, quando Marx pensou sobre a ascensão e a queda do sistema capitalista. Essa conversa continua na próxima postagem.

Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
Esta entrada foi publicada em AULA 2, TEORIA. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s