O ciclo da Fênix na teoria dos sistemas

Sistemas complexos são conjuntos de subsistemas que interagem em ciclos adaptativos.

O professor Berardi usou a imagem da Fênix, o pássaro da mitologia grega para simbolizar essa ideia. Na mitologia, a Fênix vive mais ou menos 500 anos, depois constrói um ninho, ateia fogo ao próprio corpo e, das cinzas, surge um ovo de uma nova ave, que irá reiniciar o ciclo de vida.

Outra referência para se compreender o ciclo adaptativo dos sistemas é a ideia de “destruição criativa”, que tem como uma das referências o economista Joseph Shumpeter.

Num sentido muito básico, a ideia de destruição criativa descreve o modo como o desenvolvimento do capitalismo surgiu da destruição de uma ordem econômica anterior que, por uma série de inputs não se sustentou mais. O capitalismo foi a resposta que destruiu a configuração anterior e, como um sistema dinâmico e adaptativo, continua destruindo e reconfigurando riquezas existentes. Isso acontece com a emergência e a falência de empresas e impérios, por exemplo.

Durante o ciclo adaptativo, é possível identificar as características de cada fase.

São quatro fases: “r” representa a fase de crescimento e exploração até chegar ao máximo de desenvolvimento, iniciando a fase “K”, que é a de estabilidade e conservação das conquistas. Quando estas começam a não se sustentar mais, evoluem para “Ω”, que é a fase de soltura, desligamento, talvez até início da ruína. Aí vem a fase “α” de reorganização e renovação.

A fase “α”, de renovação é caracterizada por novas formas organizacionais, pela inovação e pela criatividade; na fase “r” , de crescimento percebe-se o aumento da complexidade organizacional e da diversificação. A fase “K”, de conservação é marcada pela estabilidade organizacional, pela especialização, pela otimização, pela eficiência e pela resistência. A fase “Ω” vivencia a queda da complexidade organizacional e a busca da sobrevivência.

Uma tentativa de aplicação desse ciclo foi feita pelo pesquisador Tibor Hartel, colaborador do site “Ideas for Sustainability”:

“Após preencher quase todos os nichos econômicos e maximizar a riqueza, os sistemas sócio-econômicos que existem na Europa Ocidental entraram em uma fase relativamente estacionária. Este é o estado em que a riqueza financeira é alta e o desenvolvimento é maximizado. A conectividade é alta e, com isso, o “mundo” se tornou pequeno. Os “yield gaps” (a diferença entre a produtividade real e potencial da terra cultivável) estão fechados e cada gota de resiliência da terra é absorvida (e sacrificada) para a produção. As monoculturas se estendem, em detrimento da capacidade de adaptação das paisagens. As pessoas estão tão ocupadas com o trabalho, e tudo é tão planejado, que elas têm muito pouca possibilidade de refletir sobre o que fazem e qual é a finalidade do seu trabalho. Esse cenário contribui para a sensação de falta de sentido. É o típico cenário onde a informação é alta mas a sabedoria (para selecionar o melhor conhecimento) é baixa. O capital social é forte. A dependência do sistema financeiro é alta e esse fator introduz um alto grau de estresse no sistema. É possível sentir: a sociedade atingiu um “ponto culminante de desenvolvimento”. Não só é difícil promover o desenvolvimento nesta fase, mas se torna cada vez mais difícil até mesmo manter a riqueza e consumo existentes. Esta fase pode ser descrita como sendo o “K” do sistema. Pode-se sentir que esta fase é muito vulnerável a mudanças. E as opções para o futuro deste sistema são limitadas e não muito otimistas. O sistema, que inicialmente prometeu todas as possibilidades, agora está preso em seu próprio desenvolvimento. O colapso (isto é, a fase Ω) está batendo na porta e as pessoas sentem que algo de errado está no ar. Não sei o que, mas com certeza é alguma coisa.”

As quatro fases do ciclo adaptativo dos sistemas também podem ser interpretadas a partir da perspectiva dos quatro tipos de cultura de Thompson. Assim, a fase “α” de reorganização e renovação é marcada pela liberdade típica das culturas individualistas. A fase “r” de reorganização e renovação tende a ser igualitária, com estruturas mais planas. A fase “K”, de estabilidade e conservação tende a ser hierárquica, fechada e resiliente. Nessa fase surgem os chamados “Tipping points”, ou pontos de inflexão, que podem desintegrar o sistema e seus componentes começam a criar subsistemas circulares. A desintegração ocorre na fase “Ω”, a do fatalismo, que pode ser uma transição para a fase “α”, de reorganização e renovação. Foi o que aconteceu com o império Romano, que ruiu e se reorganizou em um outro tipo de sociedade,  acontece com a alternância de poder entre as potências hegemônicas estudadas pelo economista Joseph Stligtiz e também provocou o ocaso da câmera Polaroid, que ainda tenta se reinventar, após o surgimento das câmeras digitais.

Na mitologia, a Fênix se auto-destruía com o fogo para nascer mais forte e bonita e, por isso, era um símbolo de renovação. Será que o futuro será mais bonito e inteligente?

Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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