Sobre ser duro e ser suave nos sistemas

A dinâmica das adaptações dos sistemas se relaciona com outros dois conceitos: os chamados sistemas “duros” (hard systems) e “moles” (soft systems). Sistemas duros são aqueles de caráter mais quantitativo e fixo. São especializados, racionais e ótimos para se fazer previsões para sistemas simples e complicados. Baseiam-se numa epistemologia positivista. Se são mais precisos, pecam por ter muita dificuldade para incorporar imprevistos. Os sistemas moles, embora não tenham tanta precisão, são mais flexíveis e conseguem incorporar os feedbacks dados por situações não previstas inicialmente.

Imagem exibida pelo professor Andrea Berardi para ilustrar o funcionamento dos chamados sistemas duros

Um banho de água quente à moda antiga pode ser controlado por um hard system: um dispositivo controla a entrada, outro, a saída. Os mecanismos de controle são usados para se predizer o nível de água desejado.

O exemplo emblemático desse tipo de sistema foi um estudo liderado pela cientista ambiental Donella Meadows, publicado no livro “Os limites do crescimento”, no final dos anos 70. Conforme as previsões do sistema duro desenvolvido na época,  em 2030 haveria um colapso econômico e a população do planeta começaria a declinar. É o típico exemplo de sistema muito preciso, mas que não tem muita capacidade de incorporar imprevistos como mudanças repentinas de atitudes ou políticas públicas vigorosas.

Por serem mais maleáveis, os soft systems funcionam melhor quando é preciso trabalhar com problemas complexos e quando há uma boa dose de incertezas e conflitos. Pro não ter estruturas tão rígidas, esses sistemas lidam melhor com os elementos intangíveis de situações-problema como, por exemplo, a subjetividade das pessoas, suas motivações e mecanismos de interação. As metodologias são mais qualitativas e participatórias e se baseiam numa epistemologia construtivista.

O professor Berardi fez um alerta sobre a metodologia de uso dos sistemas soft: é preciso lidar com algumas limitações inerentes à mente humana se quisermos aplicar esta abordagem.

A memória: quando se lida com o complexo e o intangível, é preciso recorrer à memória, que é seletiva e, muitas vezes, fugaz;

A falta de atenção: se deixamos passar detalhes importantes, podemos gerar explicações equivocadas

A compreensão: posto que a mente é plasmada pela cultura e, historicamente, as instituições culturais hegemônicas como a escola, os ambientes tradicionais de trabalho e, durante uns 400 anos, os meios de comunicação enfatizaram a linguagem verbal, falada ou escrita, em detrimento das linguagens não verbais. Com a emergência das novas mídias e as linguagens multimodais da cultura digital, uma diversidade de linguagens não verbais e não lineares foi desenvolvida, desfiando nossa capacidade de compreensão.

A questão da dificuldade de compreensão gerou uma discussão à parte, envolvendo pesquisas recentes nos campos da neurociência, da psicologia e da semiótica, que vem lidando com as questões relativas às estruturas do cérebro, as tecnologias, suas linguagens e os processos de semiose. O professor Berardi indicou o estudo da perspectiva do psiquiatra Iain McGilchrist, autor do livro “The Divided Brain” ( O cérebro Dividido) e uma palestra proferida por ele para a RSA.

Comunicação: finalmente, ao tratar de um soft system, precisamos levar em conta a natureza dos processos de comunicação. O professor Berardi usou o modelo de Shanon-Weaver, que aprimora o simplista modelo de “eu emito a mensagem, que viaja por um canal, usando um código e você a recebe”.

Conforme este modelo, também chamado de cibernético, alguém com uma mentalidade específica modela uma ideia usando um código e a acomoda em algum tipo de transmissor como, por exemplo, textos numa página de jornal, seguindo as regras da prática jornalística, como responder as perguntas básicas, criar um lide, colocar declarações dos dois lados da questão, fazer um título que atraia a curiosidade do leitor etc.

A mensagem modelada viaja por um canal que, não raro, é prejudicado por ruídos, que podem ser de natureza física (má qualidade da impressão do jornal) ou cultural (habilidades de leitura pouco desenvolvidas a ponto do leitor não conseguir perceber ironias ou tendenciosidades no texto). Ao ser recebida, a mensagem deve se enquadrar na nova modelagem, que é feita pelo receptor, que também tem uma mentalidade específica e que pode ser diferente daquela do emissor. Nesse processo, alguns aspectos da mensagem podem ser compreendidos, outros não, alguns podem ser aceitos, outros rejeitados e isso pode acontecer tanto por causa de diferenças de repertório, quanto por causa de problemas como falta de atenção ou memória. Portanto, o modelo recebido raramente vai coincidir com aquele idealizado no ato da produção.

Embora sejam fatores impactantes, essas limitações de  memória, compreensão, atenção e comunicação não comprometem a abordagem dos soft systems, uma vez que eles já foram pensados para acomodar as limitações humanas e as perspectivas diferentes. Para concluir esse tópico, o professor Berardi apresentou um quadro comparativo entre três tipos de sistemas: os “sistemáticos” ou hard systems, os “sistêmicos” ou soft systems e os “evolucionários” ou complexos. Essa comparação será discutida na próxima postagem.

Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
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