Mão na massa e resultados

Para terminar a última aula, aplicamos a metodologia em três etapas a um problema fictício: uma crise em Bauru provocada por incêndios descontrolados, ondas de violência urbana e epidemia de dengue hemorrágica. Com um cenário complicado desses, por onde começar a agir?

Seguindo a metodologia dos soft systems, nossa primeira tarefa foi construir uma “rich picture” individual, que depois foi comentada para o grupo. Eu fiz essa:

A seguir, cada aluno apresentou a sua visão ampla da crise. O professor Berardi fez comentários pontuais a cada contribuição.

Ainda na segunda etapa, cada aluno elaborou o seu diagrama de subsistemas dentro do sistema “Crise em Bauru”. Eu fiz assim:

Tentei organizar o caos em pares de elementos que se complementam: meio ambiente e espaço urbano; instituições e subjetividade das pessoas; reações positivas e negativas que são despertadas com a crise. Parece que, aos poucos, o caos que eu havia desenhado começou a ganhar alguma estrutura, moldada pela falta de comunicação entre os diversos grupos envolvidos na crise. Assim, por exemplo, fiz gente fugindo para o campo porque não sabia que o campo também estava caótico. Fiz gente se matando, mas também pessoas se empenhando em procurar uma solução, representadas por aqueles que replantavam árvores nas margens do rio Batalha. Enfim, se houvesse alguma conexão entre instituições e subjetividades, entre as áreas rural e urbana, entre os otimistas e os pessimistas, talvez fosse possível ao menos reduzir sensivelmente o caos, num curto período de tempo, porque as pessoas veriam os outros lados da questão, a partir da perspectiva do outro. Essa potencial redução da situação de caos daria fôlego aos grupos para pensar em soluções mais estruturais e duradouras.

Percebemos que a transição da rich picture para o diagrama em subsistemas dentro do sistema começa a pôr ordem nas ideias, entretanto sem ainda atribuir uma hierarquia, o que aumenta a chance de restringi-las. Nesta fase, a visão ainda é holística e não linear, embora comece a ter uma organização que prepara o caminho para a terceira etapa, a da elaboração dos diagramas com conexões e feedbacks, que nossa turma apelidou de “conexograma”.

Como o tempo estava se esgotando, a última etapa foi feita pela turma toda. Primeiro, listamos as palavras usadas por todos os diagramas e as agrupamos por proximidade: êxodo rural e fuga da cidade; florestas e rios; escola, igreja e hospital, morte por doença e suicídio etc.

Por fim, fizemos um diagrama de relações de influência, com feedbacks positivos e negativos. Esse diagrama, se fosse elaborado à exaustão, nos daria uma visão sistêmica da crise e nos ajudaria a encontrar soluções criativas para enfrentar o problema.

Foram 16 horas de curso, concentradas numa teoria cheia de nuances e minuciosidades. Para mim, que não tinha uma visão estrutural dessa área e muito menos conhecimento sobre como aplicar a teoria na prática, voltei para casa com a cabela fervilhando. Foi por isso que resolvi registrar o máximo que pude neste blog.

Passados alguns dias da maratona do pensamento sistêmico, fico pensando no que esse curso significou para mim, e tive uma resposta no feriado da Proclamação da República, quando fui ver uma exposição de obras do designer italiano Bruno Munari, no Instituto Tomie Otake em São Paulo.

Munari é autor tanto de objetos criativos e funcionais quanto de obras de arte no mais típico estilo dadaísta, e transita com maestria em o utilitarismo e a pura experimentação estética. E, o mais curioso é que, na obra dele, uma coisa parece estar aninhada à outra, isto é, provavelmente ele não teria a “sacada” de criar os habitáculos se não tivesse feito os experimentos com as chamadas “máquinas inúteis”.

A obra do designer italiano Bruno Munari mostra como o experimento estético abstrato é o caminho para a criação de coisas úteis e criativas.

A experiência com o pensamento sistêmico, de certa forma (e guardadas as devidas proporções) me pareceu mais ou menos como estar dentro da mente de gente como Munari. Ali na, naquela hora, não passou muito de um experimento cognitivo, mas eu senti que trouxe uma contribuição importantíssima para o desenvolvimento da minha criatividade intelectual: pensar de maneira sistêmica em situações concretas.

Para começar, vou usar o que aprendi quando tiver de coordenar todos os elementos necessários à promoção da mídia-educação nas escolas de Ensino Médio tal como elas são: locais em crise mas, por isso mesmo, abertos a soluções inusitadas.

Sobre ABujokas

Sou graduada em jornalismo, doutora em educação, professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e pesquisadora no campo da media literacy/mídia-educação. Embora viva na terra do boi Zebu, não tomo leite e não como carne, porque fazem mal para mim e para o meio ambiente.
Esta entrada foi publicada em AULA 3, PRÁTICA. ligação permanente.

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